Psicanalista Mestre e Doutoranda em Psicanálise

sábado, 4 de novembro de 2017

Um Olhar Multidisciplinar sobre o Autismo



Um Olhar Multidisciplinar sobre o Autismo

 

Um sujeito não cessa de ser um sujeito, mesmo que seu corpo seja “deficiente”. O fato de haver algo de biológico em jogo não exclui sua particularidade como um ser imerso na linguagem. (Laurent)
 
No início do século passado, por volta de 1911, um psiquiatra suíço chamado Eugene Bleuler pela 1ª vez se utiliza da palavra “autismo” que tem a sua origem no alemão “AUTISMUS” afim de descrever um paciente esquizofrênico, que por sua vez se retirasse em seu próprio mundo, definindo-a como um conjunto de operações psíquicas que afetam a percepção da realidade acarretando uma impossibilidade ou grande dificuldade para se comunicar.
Na sequência, Leo Kanner, um psiquiatra austríaco erradicado nos Estados Unidos, por volta de 1943 inicia suas pesquisas na Universidade de John Hopkins baseada na observação de 11 crianças e relato dos pais, onde se observava uma inaptidão e dificuldade nas interações sociais.
Mas foi apenas no final da década de 70, início dos anos 80 ,(1978 /1980) que pela primeira vez o termo esquizofrenia e autismo foram compreendidos como distintos, pois enquanto na esquizofrenia há uma ruptura causada por algo traumático em algum momento da vida, o autismo é desde sempre, isto é, não houve uma relação inicial.
O TEA- Transtorno de Espectro Autista é um transtorno de desenvolvimento, neurobiológico, uma alteração no desenvolvimento mental que faz com que ele tenha dificuldades de se relacionar com as pessoas, e por isso precisa muito de ajuda, sendo a família parte fundamental na condução de seu tratamento. Ainda não há cura para o autismo, portanto, o que mais nos importa é promover qualidade de vida para esse sujeito, que é possível conquistar através de um trabalho multidisciplinar.
E para saber se alguma criança tem autismo, é importante observar alguns sinais:

-A criança evita contato visual? ; -Não responde quando é chamado? ; -Costuma mexer com os dedos e as mãos de forma peculiar? ; -Fica fazendo movimentos repetitivos sem motivo aparente? ; -O desenvolvimento da linguagem parece diferente? ; -Costuma emitir sons e palavras repetidas fora do contexto? ; -Brinca com os objetos e brinquedos de forma bastante particular? ; -Confunde-se com frases de sentido figurado e costuma ser literal? ; -Parece ter reduzida sua capacidade imaginativa? ; -Apresenta interesse exagerado em assuntos muito específicos? ; -Tem pouca noção de situação de perigo? ; -Comunica-se melhor falando de temas de seu interesse? ;-Isola-se dos colegas sem motivo aparente?

Se essa criança apresenta alguns desses comportamentos em ambientes diferentes e se você percebe que isso vem se repetindo, é relevante procurar um profissional (neurologista, psiquiatra, psicólogo, psicanalista, fonoaudiólogo) que possa te orientar de forma adequada. Converse com ele, tire suas dúvidas, conte a história dessa criança. Quanto antes ela for diagnosticada e mais rápido iniciar um acompanhamento multidisciplinar, mais qualidade de vida ela poderá ter. A família é parte fundamental nesse processo.
De que forma a Psicanálise pode contribuir?
Por ser uma prática voltada a partir do sujeito e para o sujeito respeita sua subjetividade e tem por finalidade justamente fazer que esse sujeito possa emergir.
As criança com autismo, mesmo que não pronunciem, que não oralizem sequer uma palavra, as chamadas não verbais, podem se comunicar de várias formas, através de gestos, olhares, sons e até mesmo dos movimentos estereotipados, que nada mais são do que uma tentativa de se organizarem, de darem conta das inúmeras sensações que os invadem.
A psicanálise foi o primeiro movimento que deu voz à esses sujeitos, que os “desasilou”, que pôde entender que por detrás de um rótulo, condição ou precariedade, existe uma pessoa que é única e plural. Que mesmo não havendo cura para o autismo, entende que é possível promover qualidade de vida através da multidisciplinalidade.
A prática psicanalítica nos convida a pensar em algo que justamente é extremamente contraditório mas contemporâneo, que é a aceitação do que não é pior, nem tampouco menor, mas diferente. E justamente por isso, promover um olhar multidisciplinar pode propiciar mais abertura e possibilidades para algo tão complexo e plural como o autismo.
Ela pode ajudar esse sujeito a se apropriar de sua própria imagem, que se reconheça, que tenha ao menos um pouco da noção da dimensão desse corpo, corpo esse que é linguagem, que ele possa aprender a se manifestar e que consiga lidar de forma menos intrusiva com tudo aquilo que vêm do mundo externo e que o invade de sensações com as quais ele tem precariedade em lidar. A Psicanálise OUVE esse sujeito, DÁ VOZ à ele para que se propicie emergir um sujeito desejante, autônomo e que junto de sua família seja capaz de construir sua própria história.

“O que temos de mais humano é a necessidade de fazer a vida excessiva que trazemos sempre conosco, muita das vezes perigosa, conviver e funcionar com a necessária regulação social dos desejos e dos gozos. Para cada um, esse cruzamento é único e distinto e mantém-se às custas de um trabalho contínuo. O autista entretanto, realiza esse trabalho com pedra lascada e barro fofo.” (Éric Laurent)


Por Andréa Pinheiro Bonfante
*Psicanalista / Psicopedagoga- ABPp:1271-RJ
*Mestranda em Psicanálise Saúde e Sociedade
*Diretora de Mobilização Distrital do Sindicato
dos Psicopedagogos do Brasil- CRPp:816


Espaço Multidisciplinar Vida Plenal – Rua André Rugeri, 115- Bairro de Fátima- Valença- RJ
(24)99316-8982 whatsapp / (24)2452-4478 Clínica -  e-mail:andreapinheiroprof@hotmail.com


BIBLIOGRAFIA:

*LAURENTE, Éric - A batalha do autismo: da clínica à política/ Éric Laurent; tradução Claudia Berliner. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2014
*RIBEIRO, Jeanne Marie de Leers Costa – A criança autista em trabalho





sábado, 23 de setembro de 2017

Grupo CAIA- Caminhar Autístico e Investimento Afetivo






O Grupo CAIA- Caminhar Autístico e Investimento Afetivo muito mais do que um grupo de apoio é um serviço de utilidade pública. Motivada por sua monografia sobre o tema e atendimentos com crianças autistas na clínica, o grupo foi criado pela então Psicanalista e Psicopedagoga Andréa Pinheiro com  a proposta de reunir pais, familiares, profissionais e / ou quaisquer outros que tenham experiências e depoimentos com autistas e queiram dividir e compartilhar conosco esse aprendizado. As reuniões mensais acontecerão na Clínica Vida Plena- Valença- RJ  sempre na primeira terça-feira do mês às 19 h sob a supervisão da profissional. Os interessados em participar dos encontros, que serão sem custo, podem também se tornar parceiros e serem incluídos nas redes sociais do grupo para serem comunicados sobre a programação e usufruírem das postagens feitas frequentemente pertinentes ao tema. Aos que desejarem se unir ao grupo sejam todos muito bem vindos e que possam seguir  unidos nessa caminhada.

Andréa Pinheiro Bonfante

Psicanalista de crianças, jovens e adultos, pós-graduada em Teoria Psicanalítica pela Universidade Veiga de Almeida Tijuca RJ; Psicopedagoga Clínica e Institucional pós-graduada pela Universidade Estácio de Sá- SP; Professora de Letras (Português/Inglês e Literaturas) graduada pela UNIG- Universidade Nova Iguaçu-RJ; Tradutora e Intérprete da Língua Inglesa; Palestrante de Questões Educacionais e Familiares, Colunista do site Portal Valença-RJ, Consultora, Sócia proprietária da Clínica Vida Plena Consultórios-Valença RJ.

Clínica Vida Plena Consultórios de Psicologia, Psicopedagogia e Psicanálise

Rua Durval Cúrzio, 70- Bairro de Fátima-Valença-RJ Tel.:(24)2452-4478 (24)99316-8982 whatsapp

TDAH e Transtornos de aprendizagem. Como saber? O que fazer?


TDAH e Transtornos de aprendizagem. Como saber? O que fazer? 


Seu filho é ativo e não para de correr de um lado pro outro? Seu filho é questionador?  Ele é curioso? É teimoso? Seu filho quer estar sempre experimentando e conhecendo coisas novas e fica excitado com essas possibilidades? Ele tem dificuldade em ficar parado porque é extremamente vibrante e fica empolgado com o novo? Tem dificuldades em aceitar regras e limites? Se dispersa com razoável facilidade? Passa por dificuldades na escola? Tem dificuldade em se responsabilizar com suas tarefas? Tem dificuldades de concluir tarefas já iniciadas? Se você disse sim a todas essas perguntas ou a maioria delas pode estar se perguntando se seu filho tem TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) ou quaisquer outros transtornos de aprendizagem que tanto se comenta nos tempos atuais nos consultórios pediátricos, nas instituições escolares, entre os educadores ou qualquer outro lugar onde haja um pai ou uma mãe preocupado com o comportamento não “adequado” de seu filho ou resultados “nada satisfatórios” na escola. E nesse caso, o que fazer? Que providência tomar? Medicar é lógico. Só que não. Não é disso que se trata como diz nosso sábio Psicanalista Jacques Lacan. Apresentar tais sintomas não faz necessariamente de uma criança um portador de um desses transtornos. Qualquer um de nós pode se enquadrar num desses padrões em determinado momento ou circunstância.

“Hoje já podemos falar em aprendizagem sem necessariamente pensar num modelo único e puramente de transmissão de saber. Existem diversos modelos e uma vasta forma de trabalhar a educação, claro que há umas que possibilitam mais autonomia e outras que ainda prendem o sujeito numa alienação, que o impede de ver o mundo com seus próprios olhos”. (JACQUES LACAN)¹

A questão é que precisamos ter muita cautela quanto a todas essas questões, pois um laudo precipitado e pouco investigado pode acarretar em medicalização indiscriminada e rotulações indesejáveis para seu filho, tirando dele toda sua subjetividade. O que venho propor aqui é uma abordagem diferenciada sobre o assunto, um olhar além que possa trazer aos pais esclarecimentos quanto o quão grave pode ser a precipitação de um diagnóstico.
Charles José da Silva, Psicólogo Clínico, Psicanalista, Pós graduando em Teoria e Clínica Psicanalítica, diz em seu artigo Medicalização do Sofrimento e a Dor Existencial Humana “[...] medicalizaram-se as crianças, por apresentarem rebeldias que, até bem pouco tempo tratávamos como ‘coisas de crianças’ e que hoje demos o status de “doença”“. Estamos tornando nossas crianças e suas infâncias doentes “³”.
Posso comprovar o que diz o caro colega todos os dias em minha clínica, onde atendendo crianças com demandas das mais diversas, sendo de aprendizagem ou emocionais, tanto na vertente Psicopedagógica ou Psicanalítica, defronto-me com familiares numa busca inalcançável de perfeição de conduta dessas crianças que desejam apenas ser ouvidas por aqueles que amam e que na grande maioria das vezes os problemas que apresentam são da ordem do emocional. Crianças meramente desmotivadas pelo processo educacional e não “doentes”. É preciso investigar as causas e não apenas voltar os olhares para os sintomas apresentados acima, que podem erroneamente nos influenciar fazendo-nos supor sobre o assunto.
O discurso atual que mais prevalece nas redes sociais atualmente fala sobre a intolerância, aceitação das diferenças, a pluralidade do ser humano e discursos outros que seguem essa linha de raciocínio que defendem o direito de “SER DIFERENTE” e ser aceito e respeitado como tal. Curioso que ao mesmo tempo em que a sociedade luta em aceitar a singularidade dos indivíduos dentro de uma pluralidade de realidades, quando falamos de nossos filhos no que diz respeito ao seu desempenho escolar e processos de aprendizagem, nos precipitamos em rotulá-los e medicalizá-los numa tentativa desesperada de justificar aquilo que não conseguimos entender ou lidar de forma saudável - a não aprendizagem ou a dificuldade dela. E então seguimos rotulando e medicalizando nossas crianças, muita das vezes sem necessidade, fazendo dessa geração uma geração de “zumbis”, que seguem sem questionar, pois é exatamente isso que um medicamento mal administrado pode causar.
É lógico que os laudos existem e que os medicamentos têm o seu lugar, desde que investigações a respeito dessa criança, da sua vida familiar, histórico de doenças e a forma como a criação dessa criança é conduzida sejam observados. Para se chegar a um laudo final de TDAH e outros transtornos é primordial que haja uma equipe multidisciplinar que consta de pediatra, neurologista, psicopedagogo, fonoaudiólogo e terapeuta para trabalhar de forma responsável essa possibilidade. Procure referências sobre os profissionais ao qual confiará seu filho, troque ideias e questione com eles sobre a forma mais saudável de conduzir um tratamento, e o mais importante, invista tempo e dedicação ao seu filho. Se não podemos nos precipitar em rotular nossas crianças, tampouco devemos ser omissos quanto à procura de uma ajuda profissional competente. Caso você tenha dúvidas quanto ao comportamento de seu filho, procure um profissional (neurologista, psiquiatra, pediatra ou psicólogo) que possa lhe orientar, não especule sobre o assunto nem aceite opiniões nada profissionais ou leigas. Caso o laudo seja positivo, qual o problema? Não tenha medo nem seja preconceituoso. Secretariado por uma boa equipe de profissionais seu filho poderá conduzir sua vida de forma muito saudável e positiva. O Psicopedagogo exercerá papel fundamental no tratamento desses transtornos envolvendo de forma lúdica e atraente a criança no processo de aprendizagem que é constante e diário para despertar no “aprendente” o desejo do saber, pois o que move a aprendizagem é o desejo.

Referências:

Escrito por: Andréa Pinheiro Bonfante

Andréa Pinheiro Bonfante
*Psicanalista / Psicopedagoga- ABPp:1271-RJ
*Mestranda em Psicanálise Saúde e Sociedade
*Diretora de Mobilização Distrital do Sindicato

dos Psicopedagogos do Brasil- CRPp:816

e-mail: andreapinheiroprof@hotmail.com
Espaço Multidisciplinar Vida Plena
Rua André Rugeri, 115- Bairro de Fátima-Valença-RJ Tel.:(24)2452-4478 (24)99316-8982whatsapp