Psicanalista Mestre e Doutoranda em Psicanálise

quinta-feira, 4 de junho de 2020

As birras infantis e a permissividade dos pais

As birras infantis e a permissividade dos pais. 




Quantos pais ou familiares já não se viram desagradados ou reféns das birras de seus pupilos? Entretanto, grande parte desses familiares não sabem como lidar com essa situação e se questionam quais seriam as razões para levar uma criança a manifestar seus desejos de tal forma. Vamos pensar juntos?
Proponho iniciarmos nossa reflexão com uma frase de Jean Paul Sartre: ” O desejo é uma conduta de enfeitiçamento.” O autor nos convoca a pensar sobre esse desejo desmensurado que enfeitiça a todos nós, mas principalmente as crianças. Cortella nos atenta para o fato de que os apelos constantes das mídias, as quais as crianças equivocadamente tem tido acesso livremente sem nenhum controle, seja uma das principais causas do consumismo desenfreado, que sinaliza a permissividade daqueles que cuidam de suas crianças. Não estamos atribuindo as birras exclusivamente ao consumismo, mas propondo pensar que o consumismo possa ser apenas um sintoma dessa falta de limites, que pode ser justificada por várias razões, dentre elas e de total relevância,  a ausência da função paterna, função essa que é justamente a inserção da lei, do limite, da castração.
Freud, o pai da psicanálise, diz em uma de suas obras, que uma das melhores coisas que um pai (lê-se aqui aquele(a) que cuida) pode fazer é castrar seu filho(a). Fazer com que ele(a) aprenda a lidar com o interdito, com o não, com a impossibilidade. Uma criança que não é castrada, possivelmente se transformará num adulto que não conseguirá fazer escolhas, lidar com as frustrações da vida adulta em seus relacionamentos, trabalho, estudos, etc. O que se vivencia na infância, é inevitavelmente deslizado para a vida adulta, e essas experiências infantis serão revividas e rememoradas.
A birra nada mais é do que uma tentativa desesperada desse pequeno serzinho de realizar seus desejos, custe o que custar. E isso de alguma forma é necessário e saudável nas fases infantis, pois dá notícias de que essa criança está se constituindo um sujeito, com seus desejos, sua percepção de mundo, suas preferências, … Porém, é importante compreender que as crianças utilizam-se das ferramentas que possuem para defender o que pensam, ainda não possuem argumentos para sustentar e defender suas ideias ou o que desejam, lhes falta a palavra. A linguagem, própria do ser humano, manifestada pelo diálogo e tantas outras expressões, ainda está em formação.
Desta forma, cabe aos adultos, a decisão de ceder ou não. Orientar ou deixar correr . Dá trabalho interditar e orientar. Inspirar nossas crianças, nem sempre é fácil e/ou simples, mas fundamental. O que você decide fazer por aqueles que você cria? Assumir seu papel ou deixar que esse a quem você ama, cresça um jovem ou um adulto “desbussolado”, como diz o psicanalista Jorge Forbes? Vamos pensar juntos?
Andréa Pinheiro Bonfante- Psicanalista e Psicopedagoga - Whatsapp-(24)99316-8982
Mestranda em Psicanálise, Saúde e Sociedade.

Angústia- Você sente?

Angústia- Você sente? 




O termo “angústia” vem do latim – angor, que quer dizer angustura, estreitamento, apertamento. E não é exatamente disso que se trata? Um aperto no peito, um não saber o que fazer e como fazer? Um desconforto, um mal-estar?
Desde seus primeiros trabalhos Freud (o pai da Psicanálise) vinha se preocupando com a questão da angústia, e para minimamente tentar traduzir em palavras que sentimento é esse, que sensação é essa que nos aflige, Freud diz o seguinte: “Como se origina a angústia? Tudo o que sei a respeito é o seguinte: logo se tornou claro que a angústia de meus pacientes neuróticos tinha muito a ver com a sexualidade” (Freud, 1894, p. 229).
O que podemos entender sobre esse mal-estar contemporâneo, tão atual, mas que no entanto nos afligiu desde sempre, é que quando nosso objeto de desejo é perdido ou a satisfação é apenas parcial, e ela sempre é parcial, nunca completa, esse mal estar se instala, e então sofremos com isso porque não sabemos lidar com esse “não todo”, com essa castração.
A angústia é sobre o que está perdido e o que está por vir, o desconhecido, aquilo que se planeja, se deseja, mas que não temos certeza se irá acontecer ou como irá acontecer, enfim, não temos controle sobre isso. Estamos nos referindo àquilo que é do sujeito, discurso dele, aquilo que não se pode mentir pra si mesmo, nem tapar o sol com a peneira, nem colocar a sujeira para debaixo do tapete.
A angústia fala de uma acumulação de excitação sexual que não tendo sido atendida se transforma em sintoma convertido no corpo, porque nosso corpo fala, se traduz em sensações que podem nos causar prazer e desprazer, mas que no caso da ansiedade  podem resultar em mudança de humor, insegurança, desassossego, ressentimento e até mesmo uma profunda tristeza. Um misto de emoções e sensações.
A excitação sexual da qual falamos aqui, não se restringe ao órgão sexual, ela fala do que é prazer para o sujeito, do que lhe causa bem-estar. E como esse objeto de prazer para qual apontamos fala sempre de um prazer parcial e que é para sempre perdido, ficamos mergulhados em angústia, nesse “apertamento” traduzido em sintomas, que podem ser desde a invasão de pensamentos negativos, falta de habilidade de encontrar uma saída para determinada situação, taquicardia, insônia, inquietação, sensação de sufocamento, até dores de cabeça.
A pergunta que não quer calar é a seguinte: “Como posso lidar com isso?” Nem sempre sozinho, mas com o acompanhamento de um profissional que lhe dê lugar de fala, lugar de escuta, pra que você possa falar disso até se esvaziar, até que possa elaborar o que foi dito por você e se posicione diante da vida. Entretanto, fazer o que lhe agrada, estar ao lado de quem sente prazer, pode ser  também uma excelente saída pra lidar com tudo isso de um jeito mais leve.
Prof. Me. Andréa Pinheiro – Psicanalista e Psicopedagoga- Doutoranda em Psicanálise, Saúde e Sociedade.
Agendamentos: (24)99316-8982

O que o filme “O Poço” nos fala sobre a vida real?



O que o filme “O Poço” nos fala sobre a vida real? 





Ao assistir o filme “O Poço” , nome original “The Plataform”, dirigido pelo diretor Galder Gaztelu-Urrutia, estrelante em longa metragens, fiquei pensando o quanto ele se parece com a vida real. Os níveis sociais e econômicos, a falta de empatia entre as pessoas quando literalmente “o bicho tá pegando”, além de me ver identificando no filme alguns ditados populares tais como, “farinha pouco meu pirão primeiro” ou “é preciso chegar ao fundo do poço pra reagirmos”, coisas desse gênero.
O diretor foi objetivo em sua mensagem, cruel mas bastante pertinente em relação as questões que assolam a contemporaneidade, trazendo notícias de um mundo cruel, dividido por níveis; os de cima, os de baixo e os que caem, onde os de cima não falam com os que estão nos andares mais baixos e os de baixo não devem falar com os que estão em cima, simplesmente porque esses não lhes dão ouvidos, isto é, não lhes dão voz. Muito curioso que isso nos remeta à condição de precariedade e desvalia na qual de alguma forma todos nós vivemos imersos e circundados, não é mesmo?
Curioso também é que esse filme esteja sendo um sucesso de audiência justamente no momento em que estamos passando por uma crise mundial, onde um vírus invisível nos impõe uma condição de quarentena, onde a responsabilidade social é cobrada a todo tempo, onde temos que pensar no coletivo, onde o que é meu deixa de ser tão essencial porque pra se ter o que era meu (antes da quarentena) eu preciso pensar no outro, no coletivo. Caso contrário, nada feito. Nessa quarentena, estamos nos dando conta de que “O buraco é mais embaixo”, simmm …bem mais embaixo. E por que será que nos identificamos com a mensagem do filme? Na prisão vertical, nesse mundo de níveis, a fome de uns se deve pelo simples fato de que alguns comeram demais, muito mais do que necessitavam na verdade. Uma pequena porção diária seria a solução para que ninguém passasse fome. E nós? De que fome estamos falando? talvez da fome da cura, da fome de termos nossas vidas de volta, tal como antes, mas só a teremos se nos sacrificarmos.
O Poço também mostra claramente que quando alguns padrões se impõe, a barbárie é inevitável. A lei ali se configura de forma parcial, como não guardar comida e morrer de frio ou calor se ela for desobedecida, ou então acordar em um novo andar a cada mês, e aparentemente sem nenhum critério. Surpresa total e sempre, nos convidando a pensar que um dia estamos em cima e no outro… ulalá… estamos embaixo, como na vida, ahh esse mundo não é redondo por acaso, não é mesmo? Mas internamente, em cada andar, entre os prisioneiros, vale tudo para sobreviver; matar, comer o outro, torturar, estuprar, roubar, enfim…
Protagonizado pelos personagens Trimagazi e Goreng, o filme assusta pela sua narrativa bruta, cruel e avassaladora, muito bem interpretada por ambos. Mas de alguma forma, as diferentes personalidades e formas de encarar a vida, tem aqui sua serventia, pois enquanto Trimagazi, de um jeito bem cruel, apresentou a Goreng a realidade fazendo dele um” sujeito mais forte, por outro lado, o final do filme e a “mensagem” levada para o nível zero só foi possível, devido a forma diferente de encarar a vida de seu companheiro de cela, que pensava no outro, que se importava com o próximo, que acreditou que algo podia ser feito, que não se rendeu ao desamparo e tomou uma inciativa pra que as coisas mudassem.
Se vocês me perguntassem se eu gostei do filme, eu sinceramente não saberia responder. Acho que esse não é um filme para agradar, mas para fazer pensar, refletir sobre a condição humana. Tal qual a Psicanálise, que desarticula, incomoda e faz refletir, acho que o diretor sugere isso, nos instiga a pensar a partir do nosso incômodo. Te convido a vir se incomodar assistindo esse filme. Quanto ao final… cada um que dê sentido, o seu próprio sentido.
Andréa Pinheiro Psi- Psicanalista- (24)99316-8982 whatsapp