Psicanalista Mestre e Doutoranda em Psicanálise

terça-feira, 23 de junho de 2020

COLÔNIA JULIANO MOREIRA- OS HORRORES DA PSICOSE



COLÔNIA JULIANO MOREIRA- OS HORRORES DA PSICOSE

ANOS 80



Colônia Juliano Moreira- Anos 80

A Colônia Juliano Moreira situada em Jacarepaguá- RJ com mais de 7.000.000 de Km quadrados, 749 funcionários estando 706 na administração e apenas 43 no trato direto com os pacientes, contava com apenas 20 médicos no ano de 1980 para cuidar de quase 5.000 internos. Foi quando pela primeira vez uma emissora de televisão teve o consentimento de entrar na instituição e oportunizar aos telespectadores a real dimensão do tratamento psiquiátrico da época.
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Ainda nesta década, no ano de 1988, houve então uma intervenção militar na Colônia Juliano Moreira onde esteve presente o Assistente do Ministério da Saúde Dr. Ricardo Aragão, que em entrevista à imprensa, justificou a presença da força policial como proteção à autoridade que adentrava a instituição, o Secretário de Programas Especiais de Saúde o Sr. Celso Hilguert responsável pela interdição, que foi recebido sob protesto numa manifestação pacífica pelos funcionários da instituição que acreditavam que essa demonstração de poder contra a gestão do Dr. Clécio, representava na verdade um retrocesso no tratamento dos pacientes que voltariam a ser tratados como mercadoria, inclusive  a volta do eletrochoque, cárceres privados e até mesmo da lobotomia, tão utilizada no caso de pacientes ditos como graves na década de 60.
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A Colônia Juliano Moreira foi criada em 1924, dentro dos mais modernos conceitos psiquiátricos da época, por Francisco da Rocha e Teixeira Brandão, que acreditavam e defendiam uma cultura higienista (pensamento europeu que tinha como objetivo afastar da sociedade o indivíduo que não se enquadrava nos ditos “padrões normais”, que iam desde crianças com comportamentos indesejados à prostitutas, negros, moradores de rua, homossexuais, dentre outras motivações mais incoerentes possíveis. Estima-se que apenas 30% dos internos apresentavam comportamentos psiquiátricos que justificassem suas permanências ali.




O hospital psiquiátrico Juliano Moreira recebia diariamente um número expressivo de pacientes com históricos de várias internações, pacientes esses que possuíam a chance mínima de retorno e reinserção ao convívio social, pois além de não haver por parte da família um interesse de reintegrar esse indivíduo ao seu núcleo familiar, por outro lado, não havia interesse da instituição em dar alta para esses pacientes que representavam grande lucro para os cofres da direção da colônia.
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Em todos os hospícios brasileiros da época, ao termo mais usado em relatórios era “super lotação”. Assim como em outras instituições psiquiátricas, na Colônia Juliano Moreira, pacientes eram amontoados em celas sem nenhuma condição de higiene, dormindo no chão, submetidos a eletrochoques de forma completamente arbitrária.
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Durante 10 anos, entre 1966 e 1977, a Colônia recebia crianças e jovens da FUNABEM, cuja grande maioria não apresentava nenhum laudo ou laudos nada plausíveis e confiáveis, que justificassem a arbitrariedade da condição absurda e revoltante as quais as vidas dessas crianças e jovens eram tomadas de forma tão violenta e irreversível tendo de conviver num ambiente tão hostil  entre adultos sendo-lhes sequestrado o direito de terem sequer suas infâncias preservadas.



No final da década de 60, em 1967, o hospital já era considerado o mais populosos dentre os hospitais psiquiátricos do Brasil, com quase 5.000 internos. Dentre esses internos, 1223 dormiam no chão amontoados uns sobre os outros numa condição sub-humana de total desamparo. Em 1974 começa então a diminuir o número de internações e diversos pacientes serem transferidos para clínicas particulares conveniadas ao INPS, política essa que favoreceu a expansão do setor privado e declínio da assistência pública de saúde. 
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Data do início da década de 80, devido a redemocratização do país, a primeira entrada da imprensa no interior da Colônia, possibilitando então mostrar ao público, a triste realidade dos pacientes que ali foram despejados, esquecidos e negada sua condição humana, causando assim espanto e perplexidade.
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O público pode então verificar os maus tratos e abandono aos quais os cidadãos, seres humanos como nós, estavam sendo submetidos, simplesmente como caráter punitivo e não como forma de tratamento.
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A partir de então passa a existir uma cogestão entre o Ministério da Saúde e o INAMPS, que cria uma política de reintegração social dos pacientes- O Projeto de Etapas- que consistia no pagamento de bolsas aos serviços que os internos prestavam lá dentro, numa tentativa  de “indenizar” esses pacientes que durante tanto tempo foram abandonados à própria sorte, despertando nos internos uma grande esperança de retomada de vida e resgate de suas subjetividades. A instituição progride para as eleições diretas na escolha do diretor da Colônia- Dr. Clécio Maria Gouvêa- que conquistou a confiança dos funcionários pelo trabalho realizado.
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Ao falarmos da Colônia Juliano Moreira não podemos deixar de mencionar um de seu mais célebre interno, o “Bispo do Rosário” cujas obras de arte tem sido reconhecidas dentro e fora do país. Mais três artistas contemporâneos tiveram suas obras expostas no Museu de Belas Artes; Gilmar Ferreira, Leonardo Lobão e Patrícia, e que hoje são monitores da oficina de pintura do Museu Bispo do Rosário.
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Ernesto Nazareth, um dos internos, compôs mais de 200 músicas e faleceu na Colônia aos 73 anos. Suas músicas inclusive foram as únicas usadas neste  documentário, nosso objeto de estudo- “Colônia Anos 80”. https://www.youtube.com/watch?v=lfthcmFmv6E 
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Grandes artistas, pintores, pintoras, poetas e poetisas, também estiveram internados por lá grande parte de suas vidas ou até mesmo nunca saíram, falecidos na instituição sob o olhar do abandono sem nunca terem sido lembrados por seus familiares.
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Depois da intervenção de 1988, sob a indignação de muitos, intensa negociação e um abaixo assinado de vários deputados federais, o Dr. Clécio então diretor, reassume e termina seu mandato. Em 1992 em novas eleições diretas, Dr. Laerte Thomé é eleito o novo diretor, mas devido à inúmeras denúncias de irregularidades, dentre elas venda de terras, abalam a tranquilidade da instituição provocando seu afastamento. Entretanto em 1995, é reeleito e os funcionários fundam na mesma época um jornal intitulado ”O Parabólico”, desempenhando papel primordial na informação dos funcionários.



Em 1996, os escândalos de irregularidade e descaso com os tratos dos internos, afastam definitivamente o então diretor, passando a colônia a ser municipalizada com o novo nome de “Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira”
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Em 1993 chega finalmente a proposta de criação de Lares de Acolhimento e de residências Terapêuticas na comunidade, numa tentativa de resgatar a humanidade dos internos, que através de relatos e testemunhos obteve sucesso podendo oferecer a eles o mínimo de dignidade e humanização.
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Como podemos observar, a história da Colônia Juliano Moreira é a prova cabal de uma sociedade higienista que preferiu ignorar seus doentes e submeter os diferentes a uma covarde condição de desamparo e desumanidade que durante muitos anos a sociedade preferiu ignorar.
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Entretanto façamos uma reflexão sobre o que ainda fazemos com nossos doentes psiquiátricos e com os que dentro de uma sociedade hipócrita e um preconceito velado são rejeitados e postos de lado, pelo simples fato de serem diferentes, não piores, apenas diferentes.


Andréa Pinheiro Bonfante- Psicanalista. Mestre e Doutoranda em Psicanálise, Saúde e Sociedade

sexta-feira, 5 de junho de 2020

ALTAS HABILIDADES E SUPERDOTAÇÃO

ALTAS HABILIDADES E SUPERDOTAÇÃO 




O que fazer diante de uma criança com altas habilidades e/ou superdotação? Familiares, professores e instituições escolares se veem diante de um impasse. Tratá-lo como um pequeno gênio ou uma criança com habilidades diferenciadas? Quem é essa criança que aprende num ritmo diferente do que a maioria dos outros do seu grupo?
As perguntas e as dúvidas são muitas, mesmo porque pouco se fala sobre isso, até o momento em que elas batem a nossa porta. A família chega trazendo relatos de episódios muitos curiosos sobre o que vem acontecendo na escola e no grupo social do qual fazem parte, que muitas das vezes causam desconforto e estranheza.
Essa criança que aprende a ler com muita facilidade, que sabe contar além dos números que a maioria dos da sua idade conseguem, que tem muita curiosidade em saber coisas novas,  que nem sempre consegue ficar quieto em sala de aula porque já conseguiu fazer as atividades antes dos coleguinhas, que se sente entediado e muitas vezes desmotivado em ir pra escola porque “já sabe tudo”, precisa ser ouvida com muita atenção, e não ser encarada como uma “criança problemática”. Ela é especial tanto quanto uma criança que tenha dificuldades de aprendizagem porque tem necessidades e demandas diferentes das outras, e precisa de atendimento individualizado e direcionado.
A família precisa ser orientada, não apenas pra saber quais são os direitos dessa criança, mas também pra saber lidar com suas altas habilidades. A escola também pode precisar de orientações do profissional que o acompanha, para que o processo de adequação transcorra com facilidade e tranquilidade Esses profissionais geralmente são o Psicopedagogo ou Neuropsicopedagogo e o Neuropsicólogo, que é geralmente quem faz os testes pra identificar as altas habilidades que o Psicopedagogo já via sinalizadas. Identificada a questão, o Psicopedagogo segue com atividades direcionadas respeitando sempre seu ritmo, sua subjetividade e principalmente suas demandas. Não é porque essa criança tenha uma facilidade considerável em aprender, que devamos tratá-los como miniaturas de adultos. Muito pelo contrário, elas precisam brincar, e brincar de forma lúdica, atraente, motivadora. Aprender brincando sempre é mais interessante.
O mais importante de tudo isso é compreender que estamos lidando com crianças, que precisam brincar, que gostam de brincar, e que esse brincar é extremamente relevante pra seu desenvolvimento.
Andréa Pinheiro– Psicopedagoga, Psicanalista/ Mestranda em Psicanálise, Saúde e Sociedade.
(24)99316-8982 whatsapp   andreapinheiroprof@hotmail.com

O SUICÍDIO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA.



O SUICÍDIO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA.





Há algum tempo essa imagem começou a ser veiculada nas redes sociais nos alertando para a catastrófica pesquisa que sinaliza o aumento absurdo de suicídios na infância e na adolescência.  Um par de sapatos para cada criança que se suicidou em 2017. Duzentos e vinte e seis (226) pares de sapatos, duzentas e vinte e seis (226) vidas precocemente interrompidas. O suicídio é hoje a terceira causa de morte na adolescência. Dados os quais preferiríamos não ter notícias certamente, entretanto a advertência é preciosa e precisa ser observada com extrema atenção, olhos voltados para esse público tão jovem que pede socorro, que através desse ato chamam pra si a atenção de algo que a sociedade insiste em continuar não discutindo, “tapando o sol com a peneira”.

As pessoas alarmadas se perguntam “Ué! E criança lá tem razão para se suicidar?”. A resposta é SIM. Crianças e jovens se suicidam todos os dias, com os supostos “acidentes” domésticos, muitas vezes omitido pela família, que apresenta dificuldade e preconceito para lidar com esta difícil questão. E a incidência ainda não é maior entre as crianças devido a maior dificuldade de acesso a métodos letais e imaturidade cognitiva. A criança não dá conta de traduzir em palavras muito do que lhe possa afligir, então ela passa ao ato, morde, bate, grita, chora, chuta, faz pirraça, malcriação, apresenta dificuldades na escola… e se suicida. Verbo fatal. Contra esse último não há o que se fazer, então que prestemos mais atenção quando as crianças ainda estiverem nos “dando trabalho”, porque quanto à isso ainda há algumas tantas e boas saídas, como por exemplo o amor.

Mas o que está acontecendo com nossas crianças e jovens? As razões são diversas, mas entre elas podemos destacar algumas importantes. Mais de 70% das crianças e adolescentes com transtornos de humor grave não apresentam sequer diagnóstico que dirá tratamento adequado. O abandono afetivo e a terceirização da criação dos filhos também aparecem como causa crucial nesse aspecto. Os novos arranjos familiares estão perdidos na criação de suas crianças. O modelo contemporâneo de sociedade imerso no excesso de informações do mundo digital não tem conseguido administrar qualidade x quantidade de tempo com seus rebentos, e o resultado disso não tem sido muito positivo. Perde-se tempo considerável com o supérfluo, deixando de lado o essencial, ou seja, o corpo a corpo tão necessário no acompanhamento do crescimento de nossos pequenos.

Nos consultórios crianças não param de chegar com problemas emocionais, que afetam suas relações e também sua aprendizagem. Sempre digo que precisamos deixar de falar sobre nossas crianças mas conversar com nossas crianças, olho no olho, dando à elas uma escuta pra que essa cena dos sapatos acima não seja mais parte de uma estatística dolorosa, mas apenas um possível catálogo de compras, onde a família possa escolher lindos pares de sapatos pra seus filhos vivos.

Autora: Andréa Pinheiro Bonfante – Psicanalista, Psicopedagoga, Escritora, Pesquisadora, Mestre e Doutoranda em Psicanálise, Saúde e Sociedade.