Psicanalista Mestre e Doutoranda em Psicanálise

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Há crianças feridas escondidas em adultos difíceis



Há crianças feridas escondidas em adultos difíceis





O que há por trás desse título? Que reflexão essa imagem nos propõe? Como boa observadora dos movimentos sociais por conta de minha profissão, vi essa imagem viralizar nas redes sociais como rastilho de pólvora e me perguntei que identificação as pessoas tinham com ela. Que adultos difíceis são esses? Que crianças feridas são essas, e qual a razão de estarem feridas?

Imersa em meus estudos, numa das obras de Ferenczi com o título “Confusão de Língua Entre os Adultos e a Criança”, me deparo com algo que talvez possamos considerar. Ferenczi, psicanalista e um dos mais íntimos colaboradores de Freud, nos propõe pensar sobre o que ele nomeia “terrorismo do sofrimento infantil”, quando crianças se vêm obrigadas a resolver toda sorte de conflitos familiares , carregando precocemente o fardo, a responsabilidade de terem de ser maduros o suficiente para lidarem com membros de suas famílias, pois não apenas no plano emocional mas também no intelectual, o choque, o trauma, pode permitir uma pessoa a amadurecer de repente.

Essas crianças , nomeadas por alguns autores de “crianças sábias”, não o fazem por interesse, mas por desejarem desfrutar novamente da paz que foi desaparecida e a ternura vinda daí, pois a marca mais expressiva que um trauma deixa é a perda da “confiança básica”. Esses que cuidam de suas crianças, sejam mães, pais, avós, ou outros, mostrando-se constantemente queixosos de suas vidas e padecimentos, podem transformar seus filhos pequenos em auxiliares para cuidar deles, os adultos, numa verdadeira inversão de papéis, fazendo dessas crianças suas “mães”, sem levar em conta as necessidades e interesses de seus filhos, sem ao menos os ouvirem ou voltarem seus olhos para eles. O que de certa forma estamos presenciando na sociedade contemporânea, a despeito do excesso de olhares para as redes sociais sem usufruírem da companhia de suas crianças, da excessiva troca de parceiros que são levados para dentro de casa e muitas das vezes colocando essas crianças em risco, enfim…uma desvalia por completo, um abandono supostamente “assistido” e velado, quase hipócrita 

O medo diante desses adultos de certa forma enfurecidos e desmedidos, envoltos com suas próprias questões, pode transformar por assim dizer essa criança num psiquiatra, para justamente defender-se do perigo eminente, que esses adultos sem limites e sem controle representam para elas. Quase nunca eles conseguem gritar, se queixar ou fazer alardes, congelam-se e/ou aceitam essa violência imposta a elas, nem que para isso tenham de assumir papéis para de certa forma dar significado a tudo isso, para que isso possa ser representado.


Essas experiências traumáticas vivenciadas por essas crianças não passarão sem deixar marcas, muito pelo contrário, deixarão “faturas” com valores altíssimos, já que ao longo de nossas vidas, todas as nossas vivências são impressas em nós, tais quais carimbos que serão constantemente impressos e reimpressos. Dessa forma, vale pensar quais serão as consequências que essas crianças feridas apresentarão em suas vidas adultas justamente causadas por esses adultos difíceis.
A proposta desse texto não é trazer respostas, mas sim perguntas, questionamentos sobre quais seriam as razões de vermos esse sintoma cada vez mais presente em nossa sociedade onde adultos adoecidos adoecem as crianças.
Andréa Pinheiro Bonfante- Psicanalista/Psicopedagoga- Mestranda em Psicanálise, Saúde e Sociedade.
Agendamentos:(24)99316-8982 whatsapp / (24)2452-4478 Espaço Vida Plena

quinta-feira, 4 de junho de 2020

As birras infantis e a permissividade dos pais

As birras infantis e a permissividade dos pais. 




Quantos pais ou familiares já não se viram desagradados ou reféns das birras de seus pupilos? Entretanto, grande parte desses familiares não sabem como lidar com essa situação e se questionam quais seriam as razões para levar uma criança a manifestar seus desejos de tal forma. Vamos pensar juntos?
Proponho iniciarmos nossa reflexão com uma frase de Jean Paul Sartre: ” O desejo é uma conduta de enfeitiçamento.” O autor nos convoca a pensar sobre esse desejo desmensurado que enfeitiça a todos nós, mas principalmente as crianças. Cortella nos atenta para o fato de que os apelos constantes das mídias, as quais as crianças equivocadamente tem tido acesso livremente sem nenhum controle, seja uma das principais causas do consumismo desenfreado, que sinaliza a permissividade daqueles que cuidam de suas crianças. Não estamos atribuindo as birras exclusivamente ao consumismo, mas propondo pensar que o consumismo possa ser apenas um sintoma dessa falta de limites, que pode ser justificada por várias razões, dentre elas e de total relevância,  a ausência da função paterna, função essa que é justamente a inserção da lei, do limite, da castração.
Freud, o pai da psicanálise, diz em uma de suas obras, que uma das melhores coisas que um pai (lê-se aqui aquele(a) que cuida) pode fazer é castrar seu filho(a). Fazer com que ele(a) aprenda a lidar com o interdito, com o não, com a impossibilidade. Uma criança que não é castrada, possivelmente se transformará num adulto que não conseguirá fazer escolhas, lidar com as frustrações da vida adulta em seus relacionamentos, trabalho, estudos, etc. O que se vivencia na infância, é inevitavelmente deslizado para a vida adulta, e essas experiências infantis serão revividas e rememoradas.
A birra nada mais é do que uma tentativa desesperada desse pequeno serzinho de realizar seus desejos, custe o que custar. E isso de alguma forma é necessário e saudável nas fases infantis, pois dá notícias de que essa criança está se constituindo um sujeito, com seus desejos, sua percepção de mundo, suas preferências, … Porém, é importante compreender que as crianças utilizam-se das ferramentas que possuem para defender o que pensam, ainda não possuem argumentos para sustentar e defender suas ideias ou o que desejam, lhes falta a palavra. A linguagem, própria do ser humano, manifestada pelo diálogo e tantas outras expressões, ainda está em formação.
Desta forma, cabe aos adultos, a decisão de ceder ou não. Orientar ou deixar correr . Dá trabalho interditar e orientar. Inspirar nossas crianças, nem sempre é fácil e/ou simples, mas fundamental. O que você decide fazer por aqueles que você cria? Assumir seu papel ou deixar que esse a quem você ama, cresça um jovem ou um adulto “desbussolado”, como diz o psicanalista Jorge Forbes? Vamos pensar juntos?
Andréa Pinheiro Bonfante- Psicanalista e Psicopedagoga - Whatsapp-(24)99316-8982
Mestranda em Psicanálise, Saúde e Sociedade.

Angústia- Você sente?

Angústia- Você sente? 




O termo “angústia” vem do latim – angor, que quer dizer angustura, estreitamento, apertamento. E não é exatamente disso que se trata? Um aperto no peito, um não saber o que fazer e como fazer? Um desconforto, um mal-estar?
Desde seus primeiros trabalhos Freud (o pai da Psicanálise) vinha se preocupando com a questão da angústia, e para minimamente tentar traduzir em palavras que sentimento é esse, que sensação é essa que nos aflige, Freud diz o seguinte: “Como se origina a angústia? Tudo o que sei a respeito é o seguinte: logo se tornou claro que a angústia de meus pacientes neuróticos tinha muito a ver com a sexualidade” (Freud, 1894, p. 229).
O que podemos entender sobre esse mal-estar contemporâneo, tão atual, mas que no entanto nos afligiu desde sempre, é que quando nosso objeto de desejo é perdido ou a satisfação é apenas parcial, e ela sempre é parcial, nunca completa, esse mal estar se instala, e então sofremos com isso porque não sabemos lidar com esse “não todo”, com essa castração.
A angústia é sobre o que está perdido e o que está por vir, o desconhecido, aquilo que se planeja, se deseja, mas que não temos certeza se irá acontecer ou como irá acontecer, enfim, não temos controle sobre isso. Estamos nos referindo àquilo que é do sujeito, discurso dele, aquilo que não se pode mentir pra si mesmo, nem tapar o sol com a peneira, nem colocar a sujeira para debaixo do tapete.
A angústia fala de uma acumulação de excitação sexual que não tendo sido atendida se transforma em sintoma convertido no corpo, porque nosso corpo fala, se traduz em sensações que podem nos causar prazer e desprazer, mas que no caso da ansiedade  podem resultar em mudança de humor, insegurança, desassossego, ressentimento e até mesmo uma profunda tristeza. Um misto de emoções e sensações.
A excitação sexual da qual falamos aqui, não se restringe ao órgão sexual, ela fala do que é prazer para o sujeito, do que lhe causa bem-estar. E como esse objeto de prazer para qual apontamos fala sempre de um prazer parcial e que é para sempre perdido, ficamos mergulhados em angústia, nesse “apertamento” traduzido em sintomas, que podem ser desde a invasão de pensamentos negativos, falta de habilidade de encontrar uma saída para determinada situação, taquicardia, insônia, inquietação, sensação de sufocamento, até dores de cabeça.
A pergunta que não quer calar é a seguinte: “Como posso lidar com isso?” Nem sempre sozinho, mas com o acompanhamento de um profissional que lhe dê lugar de fala, lugar de escuta, pra que você possa falar disso até se esvaziar, até que possa elaborar o que foi dito por você e se posicione diante da vida. Entretanto, fazer o que lhe agrada, estar ao lado de quem sente prazer, pode ser  também uma excelente saída pra lidar com tudo isso de um jeito mais leve.
Prof. Me. Andréa Pinheiro – Psicanalista e Psicopedagoga- Doutoranda em Psicanálise, Saúde e Sociedade.
Agendamentos: (24)99316-8982